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Varizes

Varizes não regridem: por que o melhor momento de tratar é no começo

As varizes são uma doença progressiva: sem tratamento, tendem a aumentar e podem evoluir para inchaço, manchas e feridas. Entenda por que a avaliação precoce faz diferença.

Por Dr. Rodrigo Domingues, cirurgião vascular · CRM-PB 9052 · RQE 4594 · RQE 6272
· 7 min de leitura

Exame de ecodoppler vascular sendo feito na panturrilha de uma paciente com varizes
Neste artigo
  1. O que são as varizes
  2. Por que as varizes não regridem sozinhas
  3. Como a doença evolui: a classificação CEAP
  4. O que pode acontecer quando as varizes não são tratadas
  5. Por que o começo é o melhor momento para tratar
  6. Meias de compressão e cuidados em casa ajudam?
  7. Quando procurar o cirurgião vascular

Muita gente convive com varizes por anos esperando que elas melhorem sozinhas. Infelizmente, isso não costuma acontecer. As varizes são uma manifestação da insuficiência venosa crônica, uma doença que a literatura médica descreve como degenerativa e progressiva: sem tratamento, a tendência é que as veias doentes aumentem e que surjam novos sinais com o passar do tempo.

A boa notícia é que, quando a avaliação acontece cedo, as opções de tratamento são mais simples, a recuperação é rápida e é possível evitar as complicações das fases avançadas. Neste artigo, explico o que acontece dentro da veia, como a doença evolui e quando vale procurar o cirurgião vascular.

O que são as varizes

Varizes são veias superficiais dilatadas, tortuosas e alongadas, mais frequentes nas pernas e nas mulheres, segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Elas aparecem quando as veias não conseguem levar o sangue de volta ao coração com eficiência.

Dentro das veias das pernas existem pequenas válvulas que funcionam como portas de mão única: deixam o sangue subir e impedem que ele volte. Com a idade ou por herança genética, a parede da veia perde elasticidade e essas válvulas deixam de fechar direito. O sangue passa a refluir e se acumular, a pressão dentro da veia aumenta e ela se dilata e entorta, como explica o Ministério da Saúde.

Ilustração comparando uma veia saudável, com válvulas fechadas e sangue subindo, e uma veia varicosa, dilatada, com válvulas abertas e sangue refluindo
À esquerda, veia saudável: as válvulas fecham e o sangue sobe em direção ao coração. À direita, veia varicosa: as válvulas não fecham, o sangue reflui e a veia se dilata.

A panturrilha também participa desse sistema. Ao caminhar, a musculatura da perna funciona como uma bomba que empurra o sangue para cima e reduz a pressão nas veias. Na insuficiência venosa, essa queda de pressão não acontece como deveria. A diretriz europeia de doença venosa crônica (ESVS, 2022) associa essa pressão elevada às formas mais graves da doença.

Por que as varizes não regridem sozinhas

Uma válvula que já não fecha não volta a funcionar por conta própria. Por isso, nenhuma das principais referências médicas descreve regressão espontânea das varizes. A Cleveland Clinic é direta ao dizer que não existe cura para a tendência de formar varizes, e o sistema de saúde britânico (NHS) lembra que elas podem piorar sem tratamento, geralmente de forma lenta, ao longo dos anos.

Estudos que acompanharam pessoas por muito tempo mostram essa evolução. No Edinburgh Vein Study, 334 adultos com varizes ou insuficiência venosa foram reavaliados após cerca de 13 anos: 57,8% apresentaram progressão da doença, o que corresponde a aproximadamente 4,3% ao ano. Quase um terço das pessoas que tinham apenas varizes passou a ter alterações na pele causadas pela insuficiência venosa. Na Alemanha, o Bonn Vein Study encontrou resultado semelhante: cerca de 32% dos pacientes com varizes da veia safena evoluíram para insuficiência venosa crônica em quase sete anos, segundo a diretriz alemã de varizes.

Como a doença evolui: a classificação CEAP

Para descrever a fase da doença, os cirurgiões vasculares usam a classificação CEAP, recomendada pela diretriz da SBACV. Ela vai de C0, quando não há nenhum sinal visível, até C6, quando existe uma úlcera aberta. Saber em que fase você está ajuda a escolher o tratamento certo.

Classificação clínica CEAP (atualização de 2020)
ClasseO que significa
C0Nenhum sinal visível ou palpável de doença venosa
C1Vasinhos (telangiectasias) ou veias reticulares
C2Varizes
C3Inchaço (edema) causado pela doença venosa
C4Alterações de pele: manchas escuras, eczema, endurecimento (lipodermatoesclerose)
C5Úlcera venosa cicatrizada
C6Úlcera venosa aberta

A classificação também registra se há sintomas, como dor, peso, cansaço, cãibras ou coceira. Fonte: ESVS 2022.

O que pode acontecer quando as varizes não são tratadas

Com a pressão alta dentro das veias por muito tempo, o sangue parado inflama a pele e os tecidos ao redor. As complicações descritas pelo Ministério da Saúde, pela SBACV e pela Cleveland Clinic incluem:

  • Inchaço nos tornozelos e pernas, que piora ao longo do dia;
  • Manchas escuras (dermatite ocre), causadas pelo depósito de ferro do sangue na pele, e eczema com coceira e descamação;
  • Endurecimento da pele perto do tornozelo (lipodermatoesclerose);
  • Tromboflebite superficial: um coágulo dentro da variz, que deixa a região vermelha, quente e dolorida;
  • Sangramento de uma variz, que exige avaliação médica;
  • Úlcera venosa, a ferida típica da doença avançada.

A úlcera é a complicação mais difícil. Segundo a diretriz da SBACV, entre 50% e 75% delas levam de quatro a seis meses para cicatrizar, e pelo menos uma em cada cinco continua aberta depois de dois anos. A diretriz europeia também observa que há poucos dados sobre o quanto as alterações de pele já instaladas melhoram com o tratamento. Ou seja: a pele que já sofreu nem sempre volta ao que era.

Por que o começo é o melhor momento para tratar

É justamente por causa dessa evolução que a diretriz europeia considera justificado tratar as varizes que já causam sintomas, mesmo antes das complicações. Nas fases iniciais, a veia doente ainda não comprometeu a pele, o tratamento é menos extenso e a recuperação costuma ser mais tranquila.

Hoje, os tratamentos recomendados como primeira escolha são minimamente invasivos. O NICE, órgão britânico de diretrizes, a ESVS, as sociedades americanas de cirurgia vascular e venosa (SVS/AVF, 2023) e a SBACV colocam a termoablação endovenosa (laser ou radiofrequência) entre as primeiras opções para a veia safena doente. Nesse procedimento, a veia é fechada por dentro, sem o corte da cirurgia tradicional.

  • Termoablação (endolaser ou radiofrequência): fecha a veia por dentro com calor. Causa menos dor e inchaço que a cirurgia convencional e permite voltar mais cedo às atividades (ESVS); em geral, o paciente vai para casa no mesmo dia (NHS).
  • Escleroterapia com espuma guiada por ultrassom: uma alternativa para casos selecionados, também feita sem cortes.
  • Escleroterapia convencional: uma injeção que fecha vasinhos e pequenas varizes, que depois são absorvidos pelo organismo (Cleveland Clinic).
  • Cirurgia: continua indicada em situações específicas, com técnicas atuais de pequenas incisões.

Tratar cedo não significa operar toda veia aparente. Vasinhos e varizes sem sintomas podem ser tratados por motivo estético, mas o procedimento não é obrigatório, e a diretriz americana aponta que, em pessoas sem sintomas, intervir só para prevenir não demonstrou evitar a progressão. O que faz diferença é a avaliação precoce: identificar em que fase a doença está, acompanhar e tratar no momento em que o tratamento traz benefício real.

Meias de compressão e cuidados em casa ajudam?

Ajudam, mas têm limites. A meia de compressão alivia dor, peso, cãibras e inchaço. Porém, segundo a diretriz europeia e a diretriz alemã, ela não elimina as varizes e não impede que novas surjam. O NICE recomenda não usar a meia como tratamento definitivo quando um procedimento é indicado.

Mulher caminhando à beira-mar de tênis e short, mostrando as pernas em movimento
Caminhar ativa a bomba da panturrilha, que ajuda o sangue a voltar ao coração.

Esses cuidados são recomendados pelo NHS, pela Cleveland Clinic e pelo Ministério da Saúde. Eles melhoram o conforto, mas não devolvem à veia doente a função que ela perdeu.

Quando procurar o cirurgião vascular

Com base nas recomendações do NICE e do NHS, vale agendar uma avaliação com o cirurgião vascular se você tem:

  • Varizes que causam dor, peso, cansaço, inchaço ou coceira nas pernas;
  • Manchas escuras, eczema ou endurecimento da pele perto do tornozelo;
  • Uma variz vermelha, quente e dolorida (possível tromboflebite);
  • Uma ferida na perna que não cicatriza em duas semanas;
  • Varizes novas ou que estão aumentando.

Na consulta, o exame físico e o ecodoppler vascular, um ultrassom que mostra o fluxo do sangue e o funcionamento das válvulas, permitem classificar a doença e definir o tratamento mais adequado para cada caso.

Perguntas frequentes

Varizes podem sumir sozinhas?

Em geral, não. A válvula que deixou de funcionar não se recupera sozinha, e a doença tende a progredir. A exceção são as varizes que aparecem na gravidez, que costumam melhorar, total ou parcialmente, depois do parto.

Usar meia de compressão faz as varizes desaparecerem?

Não. A meia alivia sintomas como dor, peso e inchaço, mas não elimina as varizes nem impede o aparecimento de novas, segundo as diretrizes europeia e alemã.

Salto alto, depilação e carregar peso causam varizes?

Segundo a SBACV, não. Os principais fatores de risco são a herança familiar, o sexo feminino, a idade, as gestações, a obesidade e passar muito tempo em pé ou sentado.

O tratamento de varizes exige internação?

Na maioria dos casos, não. Técnicas como a termoablação e a espuma guiada por ultrassom permitem ir para casa no mesmo dia e retomar as atividades rapidamente. A indicação depende da avaliação de cada caso.

As varizes podem voltar depois do tratamento?

Podem, porque a tendência a formar varizes continua. O risco é maior em quem tem obesidade, fica muito tempo sentado ou engravida depois do tratamento. Por isso, o acompanhamento com o cirurgião vascular é importante.

Dr. Rodrigo Domingues

Dr. Rodrigo Domingues

Cirurgião vascular · CRM-PB 9052 · RQE 4594 · RQE 6272

Cirurgião vascular com ampla experiência no tratamento moderno e minimamente invasivo de varizes. Atende em João Pessoa nas clínicas Santa Madre (Bancários) e Inovasc (Miramar).

Notou algum sinal nas pernas?

Uma avaliação com ecodoppler mostra em que fase as varizes estão e qual o tratamento mais simples para o seu caso.

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Referências

  1. Varizes · Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV)
  2. Diretriz: Insuficiência venosa crônica: diagnóstico e tratamento · SBACV
  3. Varizes · Biblioteca Virtual em Saúde, Ministério da Saúde
  4. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs · ESVS
  5. Varicose veins: diagnosis and management (CG168) · NICE, Reino Unido
  6. Varicose veins · NHS, Reino Unido
  7. Varicose Veins · Cleveland Clinic
  8. Lee AJ et al. Progression of varicose veins and chronic venous insufficiency in the general population in the Edinburgh Vein Study. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord, 2015 · PubMed
  9. S2k guideline: diagnosis and treatment of varicose veins · PMC
  10. The 2023 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein and Lymphatic Society clinical practice guidelines for the management of varicose veins of the lower extremities · PMC

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

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